quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

“A Académica não é um jogador, um treinador ou um dirigente.”

Luís Filipe Silva tem uma vida preenchida pela Académica, pela vida académica e pela cidade de Coimbra. É o membro mais jovem da direção da Associação Académica de Coimbra – OAF, exercendo o cargo de vice-presidente, mas isso não o impede de falar com a experiência de quem já vivenciou muitos anos de cargos e decisões importantes. Mais que um vice-presidente, é um adepto da Académica, clube que apoia incondicionalmente. 

Sempre tiveste ligação à Académica, ou é um amor recente?
  A minha família tem, pelo menos nas gerações mais recentes, raízes cá em Coimbra, portanto a Académica foi sempre algo que esteve presente no nosso ambiente familiar. O meu avô paterno, apesar de também ter sido sócio da Académica durante muito tempo – chegou a receber um emblema de prata, correspondente a ter completado 25 anos de sócio - sempre foi um aficionado pelo Sporting e tentou-me incutir esse gosto. Felizmente, fui com o meu pai ver todos os jogos em casa da Académica na temporada de 2001/02, última temporada da Académica na Segunda Liga. Subimos em 2.º e lembro-me perfeitamente da festa na cidade. Essa época marcou-me e deixou-me apaixonado. Quer pela subida, quer por alguns jogadores marcantes e que admirava. Era o caso, além daqueles que eram ou vieram mais tarde a ser capitães como o Pedro Roma, o Rocha ou o Lucas, do Dário e do Kibuey, essa dupla ofensiva que me encantou. E a partir daí nunca mais deixei de ir ao Estádio, quer a esse, o velhinho, depois o Sérgio Conceição e agora com o renovado Cidade de Coimbra.

Como foi o teu percurso até chegares onde estás hoje?
  Sempre fui um aluno que gostava mais da parte associativa, ativo na Academia, Vice-Presidente do Núcleo de Direito da AAC, Presidente do mesmo Núcleo e mais tarde Vice-Presidente da Direção Geral da AAC. Durante o meu mandato na DG, por ser sócio da Académica há já bastante tempo, fiquei responsável pela ligação ao OAF e por representar a DG em tudo o que o Presidente não pudesse. Fui a todos os Conselhos Académicos, estive presente em vários debates sobre a discussão entre qual o modelo societário a escolher, SAD ou SDUQ, em todas as Assembleias Gerais, sempre em representação da AAC e com um apelo à união das hostes da Académica. Depois de ter terminado o meu mandato, com o começar do processo eleitoral na Académica fui convidado pelo Dr. Fernando José Oliveira, para integrar o projeto que viria a vencer as eleições e, dadas as condições e o projeto que eu poderia ajudar a criar, para a ligação da Académica aos estudantes universitários, e dada a relação pessoal de admiração e confiança, quer com o Dr. Fernando José, quer com o seu filho André, decidi aceitar este desafio.

És o elemento mais novo da direção. Notas diferenças nas gerações de dirigentes?
  Sou, de facto, o mais novo. E ainda por alguma distância. Fui a eleições com apenas 24 anos, mas já com muitos de Académica e com uma experiência dentro do associativismo que já me deixava confiante e confortável com a oportunidade de servir a nossa Briosa. Tenho de confessar que se notam diferenças, naturalmente, mas mais do que pela idade, pela renovação e por membros novos numa estrutura, mesmo que não apenas pela idade. A renovação de quadros, inclusivamente de dirigentes, tem de ser balanceada com a experiência e o conhecimento do futebol e da Académica. Nem uma estrutura totalmente baseada na experiência e mais “velha” será tão dinâmica e motivada, capaz de rasgos e de mais ambição, nem uma estrutura 100% inexperiente e nova será capaz, sequer, de ter noção do que terá para gerir e dos cuidados e processos para manter um clube.
  Cabe fazer um equilíbrio e, nesse ponto, cumpro o meu papel de ser o mais dinâmico possível, o mais ambicioso que consiga e ter tanta vontade e esforço quanto me seja possível.

A cidade de Coimbra e a comunidade estudantil têm vindo a perder ligação ao clube. Achas que esta situação ainda é recuperável?
  Acho que esta situação é reflexo dos tempos e do que aconteceu, quer à Académica, quer à Universidade e ao Ensino Superior. A massificação do Ensino Superior, o crescimento do número de alunos ao longo das últimas décadas fez com que estudar no Ensino Superior deixasse de ser um privilégio apenas reservado a uma elite, quer cultural, quer socioeconómica – e ainda bem. Mas naturalmente esse fenómeno trouxe uma maior dificuldade de estabelecer uma identidade, um grupo homogéneo, que permitisse manter tradições. Isso vê-se, não apenas na ligação ao futebol, mas na praxe, nas tradições académicas, na ligação à política da Universidade e associativa e em todas as realidades das quais os estudantes se têm vindo a alhear. O processo de Bolonha para isso ainda mais contribuiu. O próprio futebol tem vindo a perder identidade, sendo cada vez mais comum a circulação de jogadores, as constantes transferências e hoje é raríssimo encontrarmos jogadores, referências que se mantenham apenas como atletas de um emblema, durante toda uma vida profissional. O negócio em que se tornou o futebol não contribui para fidelizar um conjunto de jovens que já por si e pelas suas circunstâncias, não se dedica ao espirito de Coimbra como em outros tempos.
  No entanto, não acho que estejamos a falar de um qualquer clube e de uma qualquer cidade universitária. Se bem que se vai perdendo um pouco da ligação, continuam a existir traços, momentos, em que se sente a diferença e a ligação especial entre estas duas realidades. São, isso sim, momentos mais raros e muito, muito menos de acompanhamento do futebol e da Briosa no seu dia-a-dia.
  Cabe também aos dirigentes, da Académica e dos estudantes, fomentar esta ligação e fazer alguns dos esforços que temos vindo a fazer e que já vão produzindo alguns resultados.

A Académica tem procurado aproximar-se dos estudantes, seja através das semanas de recepção ou dos bilhetes mais baratos. Sentes que isso deu frutos?
  Sinto, sinceramente, que é muito difícil em um ano inverter a tendência de afastamento que vem de décadas. Ainda para mais numa realidade em que os estudantes vão cada vez mais a casa, até ao pé das suas famílias, em muitos fins-de-semana. E se já é difícil manter e recuperar adeptos que podem ficar a ver um jogo em casa, no sofá e no quente, ainda mais difícil é convencermos jovens a estarem num Estádio a ver um jogo de futebol, especialmente quando a sua passagem por Coimbra é, cada vez mais, passageira e focado apenas nos estudos.
  No entanto, a verdade é que, em momentos especiais, com campanhas de mobilização e com a ajuda e motivação (muitas vezes rara) dos dirigentes estudantis, conseguimos mobilizar milhares de estudantes para a bancada a eles destinada.
  O mais importante dessa iniciativa foi feito: mostrar aos estudantes do Ensino Superior, mostrar aos sócios da Académica, mostrar à cidade, que a Académica não se esquece as suas origens, nem a ligação que temos de cultivar com os jovens estudantes.

Que outras medidas têm sido tomadas neste contexto de aproximação aos estudantes?
  Acima de tudo começámos por estabelecer uma melhor relação institucional. A constante crispação, que assisti quando era dirigente associativo, especialmente quando fui Vice-Presidente da DG/AAC, não ajudava em nada a resolver problemas que se arrastavam há anos. Hoje há mais capacidade para lidar com divergências que, naturalmente, vão aparecendo de parte a parte.
  Temos também colaborado com a Queima das Fitas e com a Festa das Latas, oferecendo descontos aos sócios da Briosa nestas festas. É algo que ajuda também a estabelecer que a cooperação é bilateral e não depende apenas da Académica e essa tem sido uma excelente nota que temos passado.
  Fora isso, temos ocasiões mais pontuais, em que ajudamos uma atividade de um Núcleo ou de uma Associação de Estudantes, oferecemos bilhetes, algum material, até camisolas autografadas para serem sorteadas em galas de solidariedade. Depende um pouco também da pro-atividade de cada grupo de estudantes que queira colaborar connosco.

Ambicionas chegar mais longe no clube, ou o teu futuro passa por outros contextos?
  Não sou católico, portanto não sei se posso dizer que “o futuro a Deus pertence”. A verdade é que todos os dirigentes têm de ter a noção que a nossa permanência nestas funções é, por definição, temporária. E eu encaro a minha passagem pela Académica dessa mesma forma. Não posso dizer que não me desafia e que não sinto algo especial quando vou trabalhar com o intuito de ajudar a Académica, mas tenho também noção do que tenho perdido e me tenho prejudicado desde que comecei com estas funções. A nível financeiro, a nível familiar e pessoal, mas acima de tudo, a nível profissional, cada sacrifício, cada hora investida na Académica é algo que não invisto em nenhuma destas realidades, que se vão sacrificando.
  Estou, estarei sempre, disponível para ajudar a nossa Académica e quererei sempre contribuir, mas não posso prever como, quando ou com que papel, nem sequer se isso será num futuro próximo ou mais longínquo. Sei, isso sim, que quando terminar esta minha jornada como dirigente, voltarei a ser o adepto que sempre fui, torcendo pela Briosa e apoiando como posso.
  O resto, como o futuro, a Deus pertence.

A Académica continua a ser diferente dos outros clubes, ou tem cedido à política do futebol?
  Tal como a ligação aos estudantes, estamos a falar de algo que, com o evoluir dos tempos, foi sendo difícil manter como estava. O futebol não é, nem pode ser ao nível profissional, baseado no amor à camisola, aos jogadores que jogam sempre no mesmo clube e em que o fator financeiro não seja determinante. Temos é de, dentro do que nos seja possível, moderarmos este fervor capitalista do negócio e tentar manter referências do clube, apostar na formação e cultivar a identidade do próprio clube. Em algumas coisas tem-se conseguido, noutras nem tanto. Não acho que a Académica seja um clube igual aos outros, mas também não acho que seja tão diferente como pode ser.

Se pudesses deixar uma mensagem a todos os simpatizantes, sócios e adeptos, o que lhes dirias?
    Diria para não desistirem da Académica, porque a Académica não irá desistir deles.
   A Académica não é um jogador, um treinador ou um dirigente. É uma massa humana, identitária, cultural e desportiva constituída por todos nós, que devemos entender o papel que temos para ajudar a nossa Briosa.
  Precisamos de envolver as pessoas, de envolver a cidade, de perceber que os problemas da Académica se confundem com os problemas da Universidade, com os problemas da cidade de Coimbra e da região até. Falta-nos inovação, rasgo, capacidade de renovar pessoas e processos, falta-nos ambição, falta-nos união. Esta cidade, esta Universidade, esta Académica vivem do que já foram, do prestígio do passado e isso, enchendo-nos de orgulho, como aliás, assim deve ser, não nos pode fazer ficar paralisados, nostálgicos, olhando para o passado sem forças para darmos a Coimbra, à Universidade e à Académica o abanão de que precisa.
  E para isso não dependemos só de um Presidente da Câmara, de um Reitor ou de um Presidente de um clube. Dependemos de todos nós fazermos o que podemos, no nosso dia-a-dia, para sermos maiores. Para sermos os maiores.

Gonçalo Teles

20140087